n. 1 (2016): Interseccionalidade em gênero e raça

O presente dossiê, Interseccionalidade em gênero e raça, faz um levantamento das diversas situações e realidades dos temas gênero e raça que cada vez mais são discutidos e vivenciados na sociedade brasileira atual. Em tempos de crise, de várias crises que se cruzam, econômica, ética, política, epifenômenos do tecido social de uma maneira geral, ao se observar mais de perto se pode constatar que essas temáticas se inserem no bojo dessas crises, e resultam até em olhares específicos sobre as situações que as realizam.

Até mesmo tendo em mente a observação que faz Simone de Beauvoir, citada na epígrafe acima, se veja a necessidade de, justamente nesses tempos de crise, se pesquisem e se discutam mais essas temáticas, que, sem abstrações, apontam para direitos e afirmação da mulher no mundo moderno. Por exemplo, como a mulher vivencia o mercado de trabalho nesses tempos? E como a mulher negra, mais especificamente, enfrenta esse mercado, discriminatório além do mais?

Mesmo que as pesquisas e os estudos aqui relatados não se proponham, explicitamente, a fazer essa relação com os tempos críticos que estamos vivendo, esses trabalhos ao serem um recorte do presente, sinalizam essa relação, dão corpo à realidade de agora, essa que envolve o Brasil dos últimos anos. E com isso as temáticas, com seus tratamentos diversos, ganham uma atualidade no olhar e indicam caminhos.

Deste modo, os artigos que integram o dossiê tratam de diversos subtemas, no universo de gênero e raça, com centralidade na mulher que ainda não ocupa um lugar de igualdade e justiça em nossa sociedade. Relatos de pesquisa tratam também de empregabilidade, mercado laboral vinculado às mulheres negras, situação de violência das mulheres, prevenção de violência contra a mulher e violência doméstica. Prosseguem com a inserção da mulher no mercado de trabalho e o empoderamento feminino. Em perspectiva etnográfica, há artigo que se debruça sobre a trajetória da Rainha Bela no congado, em Belo Horizonte, em que se trata do registro de memórias e sua perenização.

Há também levantamento sobre mulheres negras doutoras e professoras universitárias e como enfrentam as questões raciais.

Anyde Beiriz, professorinha e intelectual de inícios do século passado, que afirmou valores e lutas feministas na Paraíba conflagrada em conflitos políticos oligárquicos, tem sua história rastreada, para não se esquecer que as lutas femininas não são de hoje e muitas mulheres no passado contribuíram para a afirmação e enfrentamento das questões femininas, enfrentando preconceitos, injustiças e esquecimentos.

A maioria dos trabalhos deste dossiê é derivada de práticas e teorizações do curso Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça, que da Universidade Federal de Viçosa, na modalidade à distância, e oferecido em todo o Brasil, formou mais de 100 gestores públicos e professores. O curso GPP-GeR é dirigido a servidores/as dos três níveis da administração pública, integrantes dos Conselhos de Direitos da Mulher, dos Fóruns Intergovernamentais de Promoção da Igualdade Racial, dos Conselhos de Educação e às/aos dirigentes de organismos da sociedade civil ligados à temática de gênero e da igualdade étnico-racial, além de gestores/as das áreas de educação, saúde, trabalho, segurança e planejamento.

Na seção “Estudos & Debates”, que geralmente traz temas diversos do dossiê, são apresentados desta feita três artigos. O primeiro trata de juventude e comunicação política, analisando dados de survey com jovens egressos do Parlamento Jovem Brasileiro sobre o uso de informação política e compartilhamento de opiniões políticas nas redes socais e blogs.

Há também artigo que dá conta de pesquisa sobre o desempenho acadêmico na Universidade Federal de Viçosa, em que se buscou identificar como variáveis socioeconômicas, background familiar e informações acadêmicas influenciam nesse desempenho.

Já o artigo seguinte remete a uma pesquisa que analisou a fanpage Doe Sangue do Ministério da Saúde no Facebook, com o objetivo de levantar a estrutura e relacionamentos que configurariam as interações entre organizações, usuários e ela. A fanpage teria como principal característica construir uma base de motivação para doações futuras.

E fecha a edição a resenha de Dalva Maria Soares sobre o livro Americanah da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, publicado no Brasil em 2014 pela Companhia das Letras, que tem tudo a ver com a temática do presente dossiê Interseccionalidade em gênero e raça.

Boa leitura.

Os editores:

Maria de Fatima Lopes (UFV)

Haudrey Germiniani (UFV)

Publicado: 2018-12-05

Estudos e Debates