n. 2 (2014): Novos estudos em História da África

Os estudos africanos são uma realidade recente no Brasil. Alguns passos iniciais foram dados no início do século XX, com os trabalhos do médico Raimundo Nina Rodrigues, sobre os africanos no Brasil, e Gilberto Freyre, que abordou aspectos culturais da presença africana no país. Ambos, entretanto, olhavam para África quando pretendiam pensar o Brasil. Na década de 1960, o trabalho de José Honório Rodrigues foi uma estrela solitária, que trouxe discussões sobre o continente africano para compreender a formação social e cultural brasileira. Contudo, o grande boom nos estudos se deu a partir da renovação dos estudos sobre escravidão, na década de 1980.

Neste período, houve uma viragem epistemológica na academia brasileira, que passou de uma análise das relações sociais focadas nos conceitos de classe e dominação para compreender a agência de sujeitos, individuais ou coletivos, que tinham voz própria, em detrimento de serem objeto de um devir histórico. Assim, buscou-se compreender as relações estabelecidas no contexto da escravidão, as formas de negociação e até certa autonomia dos escravos. Não obstante, este processo não estava completo sem se buscar as referências sociohistóricas e culturais que este grupo carregava. Para tanto, aos poucos os pesquisadores foram voltando seus olhos para o continente africano, a fim de compreender os sentidos e as práticas empregadas pelos escravos no Brasil, em busca de seus objetivos. Neste ínterim, a apropriação brasileira dos estudos sobre os mundos do trabalho, em especial aqueles realizados pelo grupo da New Left Review, na Inglaterra, foram muito importantes. Merece destaque o trabalho de E. P. Thompson, que, ao inserir o conceito de experiência na análise histórica, trouxe novas perspectivas, que valorizavam as experiências pregressas e produzidas pelos sujeitos na configuração de suas relações e, assim, de negociação em busca de seus desejos.

Este processo culminou no maior interesse pela África e, nos anos 1990, foram defendidas as primeiras teses no Brasil exclusivamente dedicadas ao tema. Segundo Vanicléia Santos (A redescoberta da África no Brasil: estudos de história da África no Brasil - 1992-2012), trata-se dos trabalhos de Leila Hernandez, Os filhos da terra do sol, sobre Cabo Verde; Selma Pantoja, O encontro nas terras de além-mar, sobre circulações urbanas entre Rio de Janeiro, Luanda e Ilha de Moçambique; Marcelo Bittencourt, As linhas que formam o EME, sobre a criação do Movimento Popular de Libertação de Angola, e de Valdemir Zamparoni, Entre "narros" e "mulungus", sobre paisagem cultural de Moçambique.

Ao passarem a integrar programas de pós-graduação em História, esses professores orientaram novos trabalhos e, aos poucos, formou-se efeito-cascata, com o aumento de professores versados em temas africanos a atuarem em programas de pós-graduação em História no Brasil. Momento importante foi o ano de 2003, quando foi promulgada a Lei 10.639 que obriga o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira na educação básica. Essa medida fomentou a expansão de disciplinas de História da África nos cursos de graduação, contribuindo com a formação de um campo específico de estudos e, assim, ampliando-se o número de pesquisas. É interessante notar que o crescimento do número de teses e dissertações que tratavam da história africana entre 2003 e 2012 representou 560% em relação ao decênio anterior, com 79 trabalhos em comparação com 12.

O presente dossiê vem apontar o alcance de maior maturidade nas pesquisas realizadas no Brasil e a comprovação da ampliação dos domínios de pesquisa cobiçados pelos investigadores nacionais. Em detrimento de buscarem apenas a África de língua oficial portuguesa, na esteira do Império Português e da escravidão atlântica, novos trabalhos têm mostrado cada vez mais fôlego e curiosidade, investindo em espaços e temporalidades que destoam dos antigos limites.

Assim, temos contribuições que vão desde o Egito e a Núbia antigos até as relações internacionais de Moçambique com o Brasil, no século XX, passando por estudos sobre intérpretes culturais e linguísticos nos primeiros contatos entre europeus e africanos nos séculos XV, o islã na bacia dos rios Senegal e Gâmbia nos séculos XVI e XVII, a formação de uma identidade "africana" entre ex-escravos de diferentes partes do continente e das Américas libertados na Libéria, no século XIX, uma história, ambiental e social, da caça e suas implicações científicas e políticas nos regimes imperiais europeus na África, e a intelectualidade africana francófona em meados do século XX. Estes estudos são uma amostra da diversidade das pesquisas brasileiras sobre África desenvolvidas recentemente.

Certamente, quando se comemoram 12 anos da lei 10639, este dossiê terá muito a contribuir com o cenário acadêmico brasileiro, com os cursos de formação e, sobretudo, com a divulgação e apreciação de nossas pesquisas. 

 

Os editores:

Thiago Henrique Mota (UFMG)
Vanicléia Silva Santos (UFMG)

Publicado: 2018-12-06

Estudos e Debates